ETNOCENTRISMO

Caros colegas, eis alguns textos complementares para quem deseja entender melhor o Etnocentrismo!

 

10/10/2000
O Crescimento do Islam e o Taleban
A historiadora Mônica Muniz faz uma avaliação do crescimento do islamismo no mundo, tomando como ponto de partida recente pesquisa feita pelo Historianet, destacando o aumento do preconceito.

Por Mônica Muniz

Dizer que o Islam é a religião que mais cresce no mundo já é consenso. Com quase um bilhão e meio de adeptos espalhados pelo mundo, os muçulmanos representam perto de 25% da população mundial e não dá mais para dizer que eles não são uma realidade social, política e religiosa. Muito se fala sobre o Islam, mas pouco se sabe sobre ele. Em recente pesquisa realizada pelo HISTORIANET sobre a expansão do Islam, em um universo de mais de 650 pessoas, 48,1% manifestaram a opinião de que o Islam representa uma ameaça para o imperialismo americano. Trata-se de um percentual elevado que só demonstra como o preconceito existe e como está enraizado em nós. Desde cedo somos direcionados no sentido de ver o Islam como uma ameaça, seja política, religiosa ou social. No nosso imaginário, Islam é sinônimo de fanatismo, terrorismo. Um avião que cai, um prédio que explode, logo somos induzidos a achar que se trata de obra de algum muçulmano árabe fanático, em plena “guerra santa” contra o ocidente.



Um dos erros mais comuns é a associação que se faz do Islam com a cultura árabe. Apesar de o Islam ter surgido na península arábica, e de ter na língua árabe - a língua do Alcorão - o fator de unidade, atualmente os árabes representam uma minoria nesse universo, menos de 18% do total. O próprio uso da palavra “árabe” expressa um preconceito, pois coloca sob o mesmo denominador, africanos, curdos, persas, turcos. Desconhecemos suas origens, suas culturas, suas tradições, as particularidades específicas de cada povo. Muito do que é passado pela mídia traz o viés do etnocentrismo, nós, o ocidente, civilizados, cultos, eruditos, belos e formosos, e eles, o oriente, a barbárie, a ignorância, o atraso. Como no século XIX, continuamos a impor a nossa maneira de ver o mundo, os nossos valores, nossa cultura, estes sim, verdadeiros e legítimos. Estranhamente apagamos de nossa memória o fato de que muito do nosso cotidiano é devido à cultura islâmica que dominou o mundo por muito tempo.

Esta postura, em grande parte, deve-se a uma política colonialista européia, iniciada no século XIX, que, ao “levar a civilização aos povos bárbaros”, na verdade representou um processo contínuo de apartheid, exploração, expropriação e genocídio. Muitas das questões que afligem o mundo contemporâneo têm origem nessa política de dominação.




Contrariamente ao que se pode pensar, o Islam reconhece, entende e aceita a existência dos diferentes povos. Em um de seus versículos, o Alcorão, o livro sagrado do muçulmano, diz que os homens foram criados em nações para que se conhecessem e se compreendessem e não para que fossem inimigos. Em seu “Sermão da Despedida”, o profeta Mohammad, cujo exemplo de vida é seguido por todos os muçulmanos, disse que um árabe não é superior a um não árabe, nem um não árabe é superior a um árabe; o branco não é superior ao negro, nem o negro tem qualquer superioridade sobre o branco, exceto quanto à temência a Deus; que os homens têm certos direitos em relação às mulheres, mas elas também têm direitos sobre os homens

Quanto à mídia, esta faz a sua parte, limitando a nossa forma de compreender o mundo aos padrões convencionados como “civilizados”. Salienta o que é estranho à cultura ocidental e esconde o que efetivamente acontece naquelas regiões. Enfatiza as proibições, as restrições impostas às mulheres, enfim, o aspecto exterior da questão, sem estabelecer uma relação de causa e efeito dos acontecimentos, sem definir o que são costumes e tradições e o que é verdadeiramente islâmico. Sob essa ótica, para o ocidente, tudo é esquisito no Islam, e do ponto de vista da aparência externa, não há muita diferença do Afeganistão para a Arábia Saudita ou a Jordânia, muito embora Arábia Saudita e Jordânia se alinhem politica e ideologicamente com o ocidente.

Vivemos num mundo globalizado, e por isso, altamente interdependente. As transformações no oriente e no ocidente influenciam um e outro profundamente. De um lado, temos os muçulmanos querendo recuperar-se dos efeitos perversos do colonialismo e sua sociedade exigindo mudanças sociais e politicas, mas qualquer mudança põe em perigo a correlação de forças atual. Do outro lado, as grandes potências se opõem a iniciativas que ponham em cheque sua hegemonia política, e os países dependentes, temendo perder uma soberania recém conquistada, vêem com desconfiança qualquer tentativa por parte de quem, até bem pouco tempo, era o opressor. A preocupação humanitária em relação à condição da mulher muçulmana é muitas vezes acompanhada por um discurso que sataniza o Islam, o que faz com que os muçulmanos fiquem mais desconfiados ainda. As consequências desses embates, cultural, político e social, invariavelmente acabam repercutindo na mulher, o elo mais fraco dessa corrente.

O caso do Afeganistão, mais em evidência, chega até nós sob a forma de aberração. No entanto, não nos ensinam que se trata de um país que vem de uma história de invasões, ocupação soviética por mais de 10 anos, que desestruturou sua economia, que sua população vive sob um cotidiano de guerra constante, uma vez que o Taleban não detém o controle total do país, que existe uma luta interna de poder entre facções muçulmanas. Como se não bastasse, os Estados Unidos acusaram o rico empresário saudita Osama bin Laden de estar envolvido nos atos de terrorismo contra as suas embaixadas no Quênia e na Tanzânia. Quando o regime do Taleban se recusou a entregar bin Laden aos Estados Unidos, a ONU, em represália, impôs pesadas sanções ao Afeganistão, cujos ônus, como sempre, recaem sobre a população indistintamente, homens, mulheres, crianças.

Quando o Taleban usa a retórica ideológica para privar a mulher muçulmana do acesso à educação básica, a mídia ocidental condena, e com razão. Afinal, há 14 séculos o Islam assegurou direitos sociais e econômicos que objetivaram garantir igualdade entre homens e mulheres, inclusive o acesso igual à educação, o direito de expressão, de propriedade, de voto. Mas, não tem razão quando define as restrições impostas à mulher afegã como parte da doutrina islâmica. O Islam não é a prática que dele fazem alguns muçulmanos. A crítica ao Taleban, assim, transforma-se num pretexto para condenar os legítimos movimentos islâmicos em geral, e mostrar ao ocidente que o Islam é incompatível com as modernas exigências sociais e políticas e que nada poderia ser pior do que uma sociedade fundada nos princípios islâmicos.

Na verdade, grupos como o Taleban, em nada diferem de tantos outros espalhados pelo mundo, na medida em que são o resultado das condições incertas do mundo moderno. Movimentos semelhantes podem ser encontrados em outros países e entre as muitas religiões do mundo e não imaginamos que eles possam ameaçar a hegemonia das grandes potências. Os cristãos americanos que bombardeiam clínicas de aborto, hindus que atacaram a mesquita de Babri, e que estão de olho nas inúmeras mesquitas espalhadas pela Índia, judeus ultra-ortodoxos que atiram pedras em mulheres que andam pelas ruas vestindo calças ou mangas curtas, enfim, todos são a expressão contemporânea da intolerância e, nesse sentido, têm mais em comum com o Taleban do que eles (ou o Taleban) percebem, e muito menos a ver com o Islam, como somos levados a supor.

Todos esses movimentos, apesar de suas diferenças externas, são uma reação às dramáticas mudanças sociais, políticas e econômicas que vêm ocorrendo nos últimos 150 anos. As transformações são rápidas, adquiriram uma dinâmica própria e estão além do controle das pessoas comuns. Os muçulmanos em geral acalentam o sonho do estado islâmico, mas percebem que esse sonho vai ficando cada vez mais distante, diante do avanço inexorável de uma civilização global secular agressiva e teconologicamente mais avançada. Em seu movimento de reação, esses grupos acabam por enfatizar o lado material, porque mais fácil de ser controlado e de ser imposto ás pessoas. Na verdade, a violência do Taleban contra os que desrespeitam as regras não deixa de ser a implementação da moderna visão de que a interferência do estado na vida das pessoas é a resposta para a maior parte dos problemas sociais.

Mas, certamente o Islam não é isso e a prova é toda sua história de tolerância e convivência pacífica com as diversas culturas com as quais ele interagiu no decorrer dos séculos.

http://www.historianet.com.br/main/conteudos.asp?conteudo=230

 

Exemplos de Etnocentrismo

Exemplo 1

Lévi-Strauss (antropólogo) relata, em seu livro "Tristes Trópicos", o mito de origem dos índios mbaiá - guaicuru, cujo território situava-se em terras paraguaias e brasileiras. Eles aprenderam a montar a cavalos e adquiriram com isso grande mobilidade e poder, passando a dominar e explorar outros grupos indígenas da região.

O mito mbaiá diz o seguinte:

"Quando o ser supremo, Gonoenhodi, decidiu criar os homens, tirou primeiro da terra os guaná, depois as outras tribos; aos primeiros, deu a agricultura, e a caça às segundas. O Enganador, que é outra entidade do panteão indígena, percebeu, então, que os mbaiá tinham sido esquecidos no fundo do buraco e os fez sair; mas, como nada mais lhes restasse, tiveram o direito à única função ainda disponível, a de oprimir e explorar os outros."

Exemplo 2

Durante a Guerra do Vietnã, o comandante das Forças Armadas norte-americanas, vendo-se obrigado a explicar as sucessivas derrotas de suas tropas, declarou à imprensa que os "amarelos comunistas" estavam ganhando a guerra porque, ao contrário dos ocidentais, não davam valor à vida e, por isso, lutavam sem nenhum temor. Segundo o militar, os destemidos vietnamitas sequer expressavam dor por ocasião da morte de amigos e parentes!

Exemplo 3

Os Cheyene, índios das planícies norte-americanas, se autodenominavam "os entes humanos’; os akuáwa, grupo tupi do sul do Pará, consideram-se "os homens"; da mesma forma que os Navajo se intitulavam "o povo’. Os aborígenes australianos chamavam as roupas dos brancos de "peles-de-fantasmas", pois não acreditavam que os ingleses fossem parte da humanidade; e os nossos xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo."

Exemplo 4

Os urubus, grupo tribal do vale do Pindaré (Maranhão), assim nomeados pelos vizinhos (civilizados e índios) se autodenominam Kaapor (Kaa = madeira, mata, floresta e Pôr - ser). Essa autodenominação sintetiza admiravelmente o mito ou a explicação da origem do grupo. "Todos os homens vieram das madeiras. Todos. Só que, enquanto os Kaapor originaram-se das madeiras boas, os outros homens (a humanidade, para eles) nasceram das madeiras podres. ( do livro "Raça e diversidade", Lilia Moritz (org.), João Baptista Borges Pereira, Edusp, 1996, SP, pág. 18)

http://www.google.com.br/search?q=cache:mKXBGBsTubEC:www.cefetsp.br/~eso/etnocentrismoexemplos.html++%22etnocentrismo%22&hl=pt&lr=lang_pt&ie=UTF-8

 

As Dificuldades do Anti-Etnocentrismo

Simon Schwartzman

Comentário ao artigo de Howard J. Wiarda, "Por uma teoria não etnocêntrica do desenvolvimento: as concepções alternativas do Terceiro Mundo", Dados, vol. 25, 2, 229-252, 1982; publicado em Dados, vol. 25, 2, 253-254, 1982.

É difícil, aparentemente, discordar do artigo de Howard Wiarda e de suas intenções. Ele faz o mea culpa das ciências sociais norte-americanas, mostra como o "Terceiro Mundo" vê as coisas de forma diferente, conclama seus colegas a reverem seus preconceitos ocidentalizantes. assim como suas agências de governo a reverem suas políticas. No entanto, o artigo deixa no final um sabor estranho, junto com a impressão de que algo está basicamente errado, e de que ele não consegue, na realidade, uma atitude realmente anti-etnocêntrica. O objetivo deste comentário é tratar de localizar onde está, na realidade, o problema.

Uma coisa que está obviamente errada é que Wiarda apresenta como um fenômeno novo algo que já é bem antigo, tanto nas ciências sociais de língua inglesa quanto nos países do "Terceiro Mundo". Sem ir muito longe, é possível lembrar o texto clássico de Alexander Gershenkron (Economic Backwardness in Historical Perspective, 1962) que, referido principalmente aos países da Europa Central, mostrava claramente como o caminho de desenvolvimento da Inglaterra e França era irrepetível. Depois, basta acompanhar as notas de pé de página do próprio artigo para vermos outras referências importantes: o artigo de Bendix de 1964, o de Richard Morse do mesmo ano, o livro de Eisenstadt de 1966. Sem falar, evidentemente, na obra também clássica e não citada de Barrington Moore de 1966, Social Origins of Dictatorship and Democracy. As teorias unilineares de desenvolvimento, no estilo dos trabalhos de Daniel Lerner ou do "manifesto não-comunista" de W. W. Rostow, já foram abandonadas pelos cientistas sociais norte-americanos há pelo menos 15 ou 20 anos, e não deixa de ser curioso que isto surja para o autor como novidade.

É claro que, nos países do "Terceiro Mundo" a crítica ao unilinearismo já vem de muito antes. Para ficarmos somente no Brasil: Gilberto Freyre escreveu Casa Grande & Senzala na década de 30, e suas teses sobre a especificidade da cultura luso-tropical têm sido publicadas há muitos anos em língua inglesa. No outro extremo, Alberto Guerreiro Ramos já fazia a crítica à sociologia anglo-saxã para o entendimento dos problemas sociais e políticos do Brasil desde o final dos anos cinqüenta, com sua Redução Sociológica.

Mais sério do que isto, no entanto, é a total negação que faz o autor de toda a produção das ciências sociais latino-americanas dos últimos anos, que têm se dedicado especificamente a este problema. Toda a sua referência a autores latino-americanos que tratam do assunto se limita a dois textos: o já obsoleto Dependência e Subdesenvolvimento na América Latina, de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, e o livro de Cláudio Véliz, The Centralist Tradition. Ele deixa de lado, ainda sem sair do Brasil, todo o material referido por Bolivar Lamounier e Femando Henrique Cardoso em "A Bibliografia de Ciência Política sobre o Brasil (1949-74)", publicado em Dados n 18; assim como os trabalhos de repercussão internacional óbvia, como por exemplo os de Guillermo O'Donnell, ou de circulação mais restrita, mas que não deviam escapar ao especialista - como o meu próprio. Na realidade, a única referência às ciências sociais contemporâneas da América Litina é depreciativa e condescendente - a referência aos "salões" do mundo moderno, onde os intelectuais subdesenvolvidos externalizariam seus complexos de inferioridade colocando a culpa de seus problemas nos outros.

Na realidade, a questão é ainda mais grave: Wiarda diz que a "próxima grande fronteira das ciências sociais" seria levar a sério as instituições dos países não-ocidentais, algo que deveria ser feito "agora pela primeira vez". Com isto, bota pelo ladrão não só a sociologia política da melhor qualidade dos últimos anos, como, de passo, toda a tradição da pesquisa antropológica, que nunca fez outra coisa; e apresenta como grande descoberta algo que todo mundo já sabia.

A verdadeira dificuldade da aplicação das teorias do desenvolvimento para os países não-ocidentais não é, como diz Wiarda, o de "levar a sério" suas instituições e peculiaridades culturais (isto pode no máximo ser o problema de alguns setores mais míopes do Departamento de Estado norteamericano), mas o de como combinar o conhecimento desta diversidade com o fato inegável de que existe um processo global de modernização e internacionalização da cultura e da economia que atinge, de forma variada, a todos os países. Bendix expressou este problema com toda a clareza em seu trabalho de 1964, ao mostrar que os problemas de construção dos Estados nacionais. da expansão da cidadania, da racionalização e internacionalização da economia etc., atingiam todo o mundo e, neste sentido, ninguém escapa ao processo de modernização: o que era e continua sendo problemático são os caminhos que tomam estes processos, e seus possíveis resultados ou fracassos. Esta visão das coisas torna inaceitável o relativismo extremado de explicar tudo pelas "peculiaridades culturais" ou institucionais dos diversos países e sociedades, e exige uma ciência social de tipo comparativo e histórico muito mais desenvolvida e amadurecida. Acredito que esta é a verdadeira fronteira, aberta não agora por Wiarda, mas há pelo menos 20 anos atrás por vários dos autores citados acima (a partir de uma tradição predominantemente weberiana), e que não podem ser ignorados.

Isto dito, creio que fica clara a dificuldade deste artigo: ao fazer tubula rasa de tudo o que já se sabe sobre o assunto que discute, o autor trata de colocar-se no centro de toda uma discussão que já vai longe - e atitude mais etnocêntrica, ou egocêntrica, não há.

http://www.airbrasil.org.br/simon/wiarda.htm

 

Etnocentrismo: inconsciente, imaginário e preconceito no universo das organizações
José Carlos de Paula Carvalho
http://www.interface.org.br/ed1_d2.htm

O etnocentrismo consiste em privilegiar um universo de representações propondo-o como modelo e reduzindo à insignificância os demais universos e culturas "diferentes". De fato, trata-se de uma violência que, historicamente, não só se concretizou por meio da violência física contida nas diversas formas de colonialismos, mas, sobretudo, disfarçadamente por meio daquilo que Pierre Bourdieu chama "violência simbólica", que é o "colonialismo cognitivo" na antropologia de De Martino. Privilegia-se um referencial teórico-prático que segue o "padrão da racionalidade técnica" (Lévi-Strauss), escolhendo-se, assim, o único tipo de cultura e educação com ele compatíveis ("cultura hegemônica" e "culturas subalternas"), declarando-se "outras" as culturas diferentes com orientações incompatíveis com o referencial escolhido; procura-se reduzi-las nas suas especificidades e diferenças tornando-as mais diferentes do que são e, a seguir, são exorcizadas, por meio de várias estratégias. Em profundidade está-se projetando "fora", como Outro e como Sombra, o que é incompatível e perigoso reconhecer que pertença ao universo da cultura padrão escolhida. A educação e as organizações educativas são instrumentos culturais desse colonialismo cognitivo: é o etnocentrismo pedagógico e o correlato psico-cultural do "furor pedagógico", uma gestão escolar autoritária e impositiva para nivelar as diferenças das culturas grupais por meio do planejamento. O etnocentrismo consiste na dimensão ético-política da mesma problemática cuja dimensão psico-antropológica envolve a Sombra ou Inconsciente. Vejamos a primeira dimensão.

O etnocentrismo origina e tem origem na "heterofobia" (o Outro - em suas diversas formas: primitivo, selvagem, louco, imaturo, homossexual, "homens de cor", crianças problemáticas, fascistas, baderneiros, "hippies", "mulheres de vida fácil", hereges etc. - constitui "perigo" que deve ser exterminado. Observação: o servidor público, nas estratégias de neoliberalismo, está dentro dessa dinâmica, mas, sobretudo, impregnado da problemática de uma Sombra do poder ...). Valendo-se da distinção de Lévi-Strauss entre dois tipos de sociedade, as que praticam a antropofagia (que vêem na absorção de certos indivíduos detentores de forças temíveis o único meio de neutralizá-las aproveitando-lhes a energia) e as que praticam a antropoemia (que, diante do mesmo problema escolheram a solução de expulsar fora do corpo social e manter temporária ou definitivamente isolados, sem contato com a "humanidade", os seres e grupos temidos, trancafiados em "reservas territoriais"), P. A. Taguieff mostra que quatro são as estratégias do etnocentrismo geradoras das diversas formas de preconceito e racismo:

1 antropofagia dialógica: racização amena de englobar o Outro no e pelo discurso persuasivo, forma predominante, em educação, do "homo academicus" e de muitas pedagogias dialógicas; é fundamental, em forma estereotipada, na mídia política;

2 antropofagia digestiva: racização repressiva da assimilação dos outros a si mesmo, todas as formas de aculturação;

3 antropoemia genocida: racização terrorista da destruição dos outros, como no caso das perseguições aos judeus, armênios, ciganos, feiticeiras, linchamentos etc;

4 antropoemia da tolerância: racização específica do desenvolvimento "em separado": em aparência, respeita-se tanto o outro, tolerando-o, o que na realidade, acaba-se por isolá-lo, não se dando aos trabalhos dos enfrentamentos de diferenças, típico de todas as ideologias do relativismo e ecumenismo.

O filme de Herzog, "Onde Sonham as Formigas Verdes", ilustra perfeitamente essa problemática da alteridade e como tratá-la, sob a forma do etnocentrismo, que é a dimensão ético-política da problemática da alteridade. Já o filme "Sem Destino", de Fonda, ilustra mais a dimensão psico-antropológica da problemática da alteridade, a questão da Sombra. Em culturanálise de grupos, os trabalhos de Maria Cândida Garcez de Oliveira e Maria Inês Joffre Tanus são estudos sobre o etnocentrismo como colonialismo cognitivo em escolas, respectivamente no caso de favelados e migrantes, que mostram as estratégias escolares de gestão desse imaginário "diferente" e as resistências, que acabam por criar organizações e educação paralelas e alternativas de grupos.

Vejamos a dimensão da Sombra. Por meio da produção do Outro, em profundidade, elude-se a emergência do Inconsciente pelo Imaginário. A antropologia psicanalítica, desde Róheim até os desenvolvimentos da antropopsicanálise institucional de Anzieu e Kaës, sobretudo valendo-se dos estudos dos discípulos de M. Klein e daqueles em torno e a partir da obra de Jung (Círculo de Eranos, Escola de Grenoble etc.), mas também dos estudos da etnopsiquiatria cultural de Devereux, de grande importância para a escola, evidencia a existência de uma energética sócio-psico-grupal. Seguindo-se o "híbrido Klein-Jung" e a arquetipologia sócio-cultural da Escola de Grenoble, diríamos que a psique individual, grupal e coletiva representa a elaboração da libido em seus vários níveis, do patente ao latente, pelas organizações sociais. A cultura representa uma organização da libido em nível individual, grupal e coletivo, de modo que as organizações sociais, que são organizações educativas, são organizações da libido, e a educação é um trabalho libidinal. A dinâmica dessa organização é uma dinâmica de sublimação repressiva, de modo que o reprimido, sob a forma do latente, sempre ameaça retornar, invadindo, como Outro, a cultura patente ou instituída. Essa dinâmica desvenda as leis da energética sócio-psico-grupal, de que parte a culturanálise de grupos. Resumidamente, em termos de psique individual, grupal e coletiva dizemos que a lei da complementaridade significa que a libido é organizada no funcionamento de um aparelho psíquico-grupal envolvendo as dimensões do Consciente e do Inconsciente, desde a primeira tópica de Freud, a que Jung deu os nomes de Persona e Sombra. Entretanto, não é pelo fato dessa existência complementar, que existem, de modo equilibrado, individual, grupal e coletivamente, essas dimensões, seja devido à repressão que constrói seletivamente a sociedade e a cultura em suas instituições (Freud e Marcuse), seja devido também ao material arquetípico que não tem mais acesso à consciência (Jung). Por isso a lei da enantiodromia: toda vez que uma orientação de desenvolvimento libidinal se unidimensionaliza no indivíduo, grupo ou sociedade, em termos consciente ou patente, constela-se inconscientemente o oposto que explode como Outro, na dinâmica da produção do Outro, criando-se o mal-estar, o perigo. Se não há elaboração, não ocorre uma confrontação, havendo, portanto, projeção. E a lei da heterotelia mostra que jamais os indivíduos e as organizações educativas conseguirão atingir suas metas racionalmente propostas em suas culturas patentes, se não levarem em consideração o latente, que é o Outro que está dentro delas mesmas. Por isso que se diz dos efeitos inesperados ou "perversos" no universo da vida individual e coletiva: por desconhecimento da dimensão latente do inconsciente que se dá por meio das produções imaginárias e/ou em virtude de uma recusa de levar em conta (elaboração), explode o resultado contrário do que se esperava. Isso é endêmico no universo da educação e das escolas. Como no caso do etnocentrismo em que se propunham "pedagogias do olhar e da escuta" (do Outro), aqui se propõe um trabalho com a Sombra individual ("a educação do educador", de Schiller), com a Sombra coletiva (a problemática do Outro - racismos) e com a Sombra biológica (o trabalho com o corpo, porque o corpo é, ao mesmo tempo, a âncora do Imaginário e do Inconsciente e a Sombra, no universo da cultura do ocidente e das pedagogias intelectualistas e positivistas).

Em culturanálise de grupos, os trabalhos de José Carlos de Paula Carvalho no Liceu Pasteur, no Colégio Iavne e na E.E.P.S.G. João Pedro Ferraz, evidenciam a presença desse "universo da angústia" e a problemática da Sombra, explodindo respectivamente sob a forma de um imaginário da morte e da derrelição (abandono metafísico), imaginário da perseguição e do bode expiatório, e imaginário da corporeidade explodida. O trabalho de Icléia Rodrigues de Lima estuda, no universo de quatro escolas em Cuiabá, a presença do corpo como Sombra e os problemas que isso acarreta para a escola, pelo fato de não ser levado em conta numa "pedagogia implicativa" (Remi Hess), e, por isso, acaba explodindo como badernas, depredação, drogas, sexualidade transversal, relações perversas professor-aluno etc.

O imaginário da corporeidade é de extrema importância em toda essa dinâmica do etnocentrismo e da Sombra pois, se não levado em conta, é origem de três políticas extremamente nocivas ao funcionamento de uma cultura criativa: a "peste emocional", de que nos fala W. Reich; a "dissidência libidinal", de que nos fala Lapassade e Lourau; e as "práticas de dejeção dos interstícios", de que fala Roussillon. Podem ser estratégias de morte e de extermínio. Diz Dadoun (1990; p.156):

aqueles que jogam as primeiras pedras, aqueles que vêem o cisco no olho do vizinho mas não vêem a trava que está no próprio olho, aqueles que têm telhado de vidro mas atiram pedras no do vizinho, aqueles que fofocam e criam rumores assassinos, aqueles que jogam a polícia e os juízes e os cães e a multidão e os psiquiatras e os educadores nas pegadas do vagabundo, do judeu, do negro, do imigrado e do marginal, e aqueles que proclamam em grandes berros místicos suas furibundas ‘verdades’ religiosas, políticas, científicas e todos aqueles incontáveis ‘zé-ninguéns’ que seguem em coro - de igreja, de partido ou de seita - os ‘fuhrers’, aglutinando-se e fazendo-se multidão, esquecendo-se em sua porção de Sombra, para saborear a calúnia, criar o rumor, veicular mentira e difamação, constituir as tribos de aclamação, alimentar as fogueiras, correr para o linchamento e, de todo o coração e com toda a boa intenção, assegurar a boa administração dos asilos, das prisões e dos ‘campos de concentração’, os salvadores do país, que querem o bem do povo, sabendo o que é melhor para ele, e a massa imensa e pretensamente silenciosa que baba jogando as últimas pedras, eis algumas das figuras da pestilência caracterial-social que W. Reich descreveu e contra a qual lutou até a morte como ‘peste emocional’, que acabou por matá-lo".

 

Esse fulcro do fascismo, que é a "couraça do caráter autoritário", na própria União Soviética pós-revolução fez gorarem nas escolas as propostas de W. Reich e Vera Schmidt. Esse fulcro espreita o discurso neoliberal no Brasil e a adesão maciça à política presidencial (à eleição...). É a "personalidade autoritária" como "couraça de caráter" da maioria dos brasileiros: apesar da "ética do jeitinho" e da desenvoltura corporal, não há "dissidência libidinal" entre os brasileiros capaz de fazer explodir a "couraça do caráter", corroborando o que W. Reich dizia que, "antes de 2080 nenhuma mudança vai acontecer em educação...". A "dissidência libidinal" consiste em, tão só pelo modo de ser e pela existência, "pro-vocar" as instituições a falarem (o que se chama "efeito analisador" em análise institucional), infelizmente e geralmente, fala de morte dos "zé-ninguéns", aparentemente imotivada, mas dotada de uma motivação extremamente profunda que se desconhece, e por isso é perigosa e faz perigar, como é precisamente o caso em "Sem Destino". É a "Cavalaria do Mal" que anda pelas paragens do Brasil. Mas há a "Irmandade dos Anéis"...

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Fernando Novais

Historiador vê diferença entre estudar a visão do índio e reconstituir a história com seu ponto de vista

(24/4/2000)

"Não podemos nos transformar em índios", diz Fernando Novais


Nome
: Fernando Novais

Cargo: professor aposentado do Departamento de História da USP e professor do Instituto de Economia da Unicamp
Especialidade: Brasil colonial
Livros: "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)" (Hucitec), diretor da série "História da Vida Privada no Brasil" (Companhia das Letras), entre outros

JOÃO BATISTA NATALI
da Reportagem Local

Autor de um dos principais clássicos da historiografia colonial: "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1801)", o historiador Fernando Novais considera que em 1500 não houve Descobrimento do Brasil, e sim o surgimento das bases da colonização portuguesa. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Novais concedeu à Folha, em sua casa.

Folha - O Brasil está comemorando efetivamente 500 anos?
Fernando Novais - Não há nenhuma nação que não tenha comemorações. Toda nação necessita de memória e de passado para se legitimar. As comemorações são lembradas de duas formas: uma pelo governo, por discursos, por inaugurações, e outra pelo mundo acadêmico, em simpósios e congressos. No Brasil e em Portugal têm havido os dois tipos de comemoração. Uma das maneiras que meus colegas historiadores inventam para discutir o assunto é falar de outros assuntos, mas eu preferia falar apenas de Descobrimento. Caracterizar a viagem de Cabral como a do "Descobrimento do Brasil" e a carta de Pero Vaz de Caminha como uma "certidão de batismo" tem pressupostos que precisam ser discutidos. Há um etnocentrismo evidente que expressa a visão do conquistador, do vencedor. Os portugueses seriam o agente e os índios, os "descobertos", os protagonistas passivos do episódio.
Folha - Seria então necessário também levar em conta o ponto de vista dos índios?
Novais - A crítica do etnocentrismo é verdadeira e não é nova. Mas isso não deve levar à idéia de que nós temos de reconstituir a história do ponto de vista dos vencidos. Nós não podemos nos transformar em índios. Uma coisa é fazer o estudo da visão dos índios e outra é reconstituir a história a partir do seu ponto de vista. Há estudos recentes de etno-história, como o que Padden fez no México e Wachteel no Peru, em que se estuda como os índios perceberam o descobrimento, a conquista e a colonização. São estudos de mentalidades. A história precisa ultrapassar os pontos de vista do vencido e do vencedor e dizer alguma coisa a mais. Como nação, somos herdeiros dos europeus, dos índios e dos negros, mas todos não participam da mesma maneira na nossa formação. Um foi o vencedor e os dois outros foram os vencidos.
Folha - Em 1500 não há, então, um "nascimento"?
Novais - Não há. Acreditar nisso seria incorrer num anacronismo, que é a segunda observação que queria fazer. Curiosamente, os historiadores têm discutido há bastante tempo o etnocentrismo, mas raramente discutem o anacronismo. Quando se fala "Descobrimento do Brasil", o etnocentrismo está no Descobrimento, e o anacronismo, na palavra Brasil.
Folha - O que é o anacronismo?
Novais - Para reconstituir determinado segmento do passado, o historiador precisa esquecer o que ele sabe que aconteceu depois. O historiador incorre no anacronismo quando ele imputa aos protagonistas o conhecimento sobre os acontecimentos posteriores. A reconstituição se torna uma "profecia do passado". Folha - É o que está acontecendo agora?
Novais - Em todo o discurso historiográfico há o problema do anacronismo. Porém, quando a nação é o objeto do discurso do historiador, o perigo do anacronismo é muito maior, porque a nação precisa de passado para se legitimar. Quanto maior o passado, melhor a legitimação. Os franceses, por exemplo, vêem seu passado mais remoto na Gália romana. No caso do Brasil, reconstituir a viagem de Cabral como Descobrimento do Brasil pressupõe imaginar que ele já sabia que iria se constituir no século 19 uma nação com esse nome. Isso é anacronismo. E a viagem se torna fundadora, isto é, um mito.
Folha - O que é, então, o Brasil?
Novais - O Brasil é um povo que se constituiu numa nação, que por sua vez se organizou como Estado. Em 1500 não havia nenhuma dessas três coisas. Logo, não houve Descobrimento do Brasil, porque o Brasil não existia nem estava encoberto. O que naquele momento surgiram foram as bases da colonização portuguesa, a qual por sua vez é a base da nossa formação. A história do Brasil é essencialmente a de uma colônia que se transformou numa nação. Logo, a colonização é a base de nossa história e nesse sentido Cabral é importante.
Folha - O sentimento da diferença do colonizador é então bem posterior?
Novais - Exatamente. Isso ocorreu quando a população começou a se pensar como diferente de seus antecessores. Primeiro, luso-brasileiros. Depois, menos lusos e mais brasileiros. Até se sentirem somente brasileiros. Isso ocorre só a partir da segunda metade do século 18, e não antes.
Folha - Até então as pessoas não se sentiam "brasileiras"?
Novais - Até o início do século 19, "brasileiro" era o comerciante do pau-brasil. É uma das diferenças entre os hispano-americanos e os luso-americanos. Na América espanhola, desde o fim do século 16, os espanhóis nascidos na colônia se chamavam de "criollos". Não há no Brasil palavra equivalente. Havia no Nordeste a palavra "mazombo". A partir do século 17 usava-se por aqui a palavra "reinol" para designar os portugueses nascidos em Portugal. Logo, diferentemente dos hispano-americanos que se identificavam por aquilo que julgavam ser ("nosotros somos criollos"), os luso-americanos identificavam-se negativamente por aquilo que sabiam não ser ("nós não somos reinóis"). Isso é importante para compreendermos porque na América espanhola o processo foi muito mais revolucionário. Por aqui foi uma transição dinástica.
Folha - Os portugueses não queriam criar uma nação, mas sim uma colônia.
Novais - Exato. A colonização não começou com Cabral. Começou em 1532, com Martim Afonso de Souza. Reitero: a viagem de Cabral é importante, mas não é "Descobrimento".
Folha - Quando as viagens começaram a ser denominadas como "Descobrimento"?
Novais - Viagens no Atlântico existem sempre desde a alta Idade Média. Mas eram isoladas e de cabotagem. A partir dos séculos 15 e 16 elas aumentam de número, passam a se articular, levando a êxitos no reconhecimento do mundo, e são chamadas viagens de Descobrimentos.
Folha - Qual a importância desse novo tipo de viagem?
Novais - Até o século 16 as civilizações permaneciam insuladas. Não há nenhum contato entre as civilizações ameríndias (incas, maias e astecas) com as africanas. Não há nenhum contato dos africanos com os chineses. O processo de desinsulamento das civilizações não foi rápido nem excluiu a dominação. O insulamento foi superado, mas isso pode ocorrer de forma perversa. Desinsulou-se a África pelo tráfico. Começou um processo de integração que só hoje está chegando ao final. Esse desinsulamento não ocorreu de forma generalizada. Houve uma civilização, a cristandade ocidental medieval européia, que realizou os contatos e promoveu o desinsulamento. Isso envolve conquista, dominação, etc. Criticar os aspectos perversos não significa ignorar que os europeus estabeleceram o contato das civilizações.


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