ETNOCENTRISMO
Caros colegas, eis alguns textos complementares para quem deseja entender melhor o Etnocentrismo!
10/10/2000 A historiadora Mônica Muniz faz uma avaliação do crescimento do islamismo no mundo, tomando como ponto de partida recente pesquisa feita pelo Historianet, destacando o aumento do preconceito. Por Mônica Muniz Dizer que o Islam é a religião que mais cresce no mundo já é consenso. Com quase um bilhão e meio de adeptos espalhados pelo mundo, os muçulmanos representam perto de 25% da população mundial e não dá mais para dizer que eles não são uma realidade social, política e religiosa. Muito se fala sobre o Islam, mas pouco se sabe sobre ele. Em recente pesquisa realizada pelo HISTORIANET sobre a expansão do Islam, em um universo de mais de 650 pessoas, 48,1% manifestaram a opinião de que o Islam representa uma ameaça para o imperialismo americano. Trata-se de um percentual elevado que só demonstra como o preconceito existe e como está enraizado em nós. Desde cedo somos direcionados no sentido de ver o Islam como uma ameaça, seja política, religiosa ou social. No nosso imaginário, Islam é sinônimo de fanatismo, terrorismo. Um avião que cai, um prédio que explode, logo somos induzidos a achar que se trata de obra de algum muçulmano árabe fanático, em plena guerra santa contra o ocidente. Um dos erros mais comuns é a associação que se faz do Islam com a cultura árabe. Apesar de o Islam ter surgido na península arábica, e de ter na língua árabe - a língua do Alcorão - o fator de unidade, atualmente os árabes representam uma minoria nesse universo, menos de 18% do total. O próprio uso da palavra árabe expressa um preconceito, pois coloca sob o mesmo denominador, africanos, curdos, persas, turcos. Desconhecemos suas origens, suas culturas, suas tradições, as particularidades específicas de cada povo. Muito do que é passado pela mídia traz o viés do etnocentrismo, nós, o ocidente, civilizados, cultos, eruditos, belos e formosos, e eles, o oriente, a barbárie, a ignorância, o atraso. Como no século XIX, continuamos a impor a nossa maneira de ver o mundo, os nossos valores, nossa cultura, estes sim, verdadeiros e legítimos. Estranhamente apagamos de nossa memória o fato de que muito do nosso cotidiano é devido à cultura islâmica que dominou o mundo por muito tempo. Esta postura, em grande parte, deve-se a uma política colonialista européia, iniciada no século XIX, que, ao levar a civilização aos povos bárbaros, na verdade representou um processo contínuo de apartheid, exploração, expropriação e genocídio. Muitas das questões que afligem o mundo contemporâneo têm origem nessa política de dominação. Contrariamente ao que se pode pensar, o Islam reconhece, entende e aceita a existência dos diferentes povos. Em um de seus versículos, o Alcorão, o livro sagrado do muçulmano, diz que os homens foram criados em nações para que se conhecessem e se compreendessem e não para que fossem inimigos. Em seu Sermão da Despedida, o profeta Mohammad, cujo exemplo de vida é seguido por todos os muçulmanos, disse que um árabe não é superior a um não árabe, nem um não árabe é superior a um árabe; o branco não é superior ao negro, nem o negro tem qualquer superioridade sobre o branco, exceto quanto à temência a Deus; que os homens têm certos direitos em relação às mulheres, mas elas também têm direitos sobre os homens Quanto à mídia, esta faz a sua parte, limitando a nossa forma de compreender o mundo aos padrões convencionados como civilizados. Salienta o que é estranho à cultura ocidental e esconde o que efetivamente acontece naquelas regiões. Enfatiza as proibições, as restrições impostas às mulheres, enfim, o aspecto exterior da questão, sem estabelecer uma relação de causa e efeito dos acontecimentos, sem definir o que são costumes e tradições e o que é verdadeiramente islâmico. Sob essa ótica, para o ocidente, tudo é esquisito no Islam, e do ponto de vista da aparência externa, não há muita diferença do Afeganistão para a Arábia Saudita ou a Jordânia, muito embora Arábia Saudita e Jordânia se alinhem politica e ideologicamente com o ocidente. Vivemos num mundo globalizado, e por isso, altamente interdependente. As transformações no oriente e no ocidente influenciam um e outro profundamente. De um lado, temos os muçulmanos querendo recuperar-se dos efeitos perversos do colonialismo e sua sociedade exigindo mudanças sociais e politicas, mas qualquer mudança põe em perigo a correlação de forças atual. Do outro lado, as grandes potências se opõem a iniciativas que ponham em cheque sua hegemonia política, e os países dependentes, temendo perder uma soberania recém conquistada, vêem com desconfiança qualquer tentativa por parte de quem, até bem pouco tempo, era o opressor. A preocupação humanitária em relação à condição da mulher muçulmana é muitas vezes acompanhada por um discurso que sataniza o Islam, o que faz com que os muçulmanos fiquem mais desconfiados ainda. As consequências desses embates, cultural, político e social, invariavelmente acabam repercutindo na mulher, o elo mais fraco dessa corrente. O caso do Afeganistão, mais em evidência, chega até nós sob a forma de aberração. No entanto, não nos ensinam que se trata de um país que vem de uma história de invasões, ocupação soviética por mais de 10 anos, que desestruturou sua economia, que sua população vive sob um cotidiano de guerra constante, uma vez que o Taleban não detém o controle total do país, que existe uma luta interna de poder entre facções muçulmanas. Como se não bastasse, os Estados Unidos acusaram o rico empresário saudita Osama bin Laden de estar envolvido nos atos de terrorismo contra as suas embaixadas no Quênia e na Tanzânia. Quando o regime do Taleban se recusou a entregar bin Laden aos Estados Unidos, a ONU, em represália, impôs pesadas sanções ao Afeganistão, cujos ônus, como sempre, recaem sobre a população indistintamente, homens, mulheres, crianças. Quando o Taleban usa a retórica ideológica para privar a mulher muçulmana do acesso à educação básica, a mídia ocidental condena, e com razão. Afinal, há 14 séculos o Islam assegurou direitos sociais e econômicos que objetivaram garantir igualdade entre homens e mulheres, inclusive o acesso igual à educação, o direito de expressão, de propriedade, de voto. Mas, não tem razão quando define as restrições impostas à mulher afegã como parte da doutrina islâmica. O Islam não é a prática que dele fazem alguns muçulmanos. A crítica ao Taleban, assim, transforma-se num pretexto para condenar os legítimos movimentos islâmicos em geral, e mostrar ao ocidente que o Islam é incompatível com as modernas exigências sociais e políticas e que nada poderia ser pior do que uma sociedade fundada nos princípios islâmicos. Na verdade, grupos como o Taleban, em nada diferem de tantos outros espalhados pelo mundo, na medida em que são o resultado das condições incertas do mundo moderno. Movimentos semelhantes podem ser encontrados em outros países e entre as muitas religiões do mundo e não imaginamos que eles possam ameaçar a hegemonia das grandes potências. Os cristãos americanos que bombardeiam clínicas de aborto, hindus que atacaram a mesquita de Babri, e que estão de olho nas inúmeras mesquitas espalhadas pela Índia, judeus ultra-ortodoxos que atiram pedras em mulheres que andam pelas ruas vestindo calças ou mangas curtas, enfim, todos são a expressão contemporânea da intolerância e, nesse sentido, têm mais em comum com o Taleban do que eles (ou o Taleban) percebem, e muito menos a ver com o Islam, como somos levados a supor. Todos esses movimentos, apesar de suas diferenças externas, são uma reação às dramáticas mudanças sociais, políticas e econômicas que vêm ocorrendo nos últimos 150 anos. As transformações são rápidas, adquiriram uma dinâmica própria e estão além do controle das pessoas comuns. Os muçulmanos em geral acalentam o sonho do estado islâmico, mas percebem que esse sonho vai ficando cada vez mais distante, diante do avanço inexorável de uma civilização global secular agressiva e teconologicamente mais avançada. Em seu movimento de reação, esses grupos acabam por enfatizar o lado material, porque mais fácil de ser controlado e de ser imposto ás pessoas. Na verdade, a violência do Taleban contra os que desrespeitam as regras não deixa de ser a implementação da moderna visão de que a interferência do estado na vida das pessoas é a resposta para a maior parte dos problemas sociais. Mas, certamente o Islam não é isso e a prova é toda sua história de tolerância e convivência pacífica com as diversas culturas com as quais ele interagiu no decorrer dos séculos. http://www.historianet.com.br/main/conteudos.asp?conteudo=230 |
Exemplos de Etnocentrismo Exemplo 1 Lévi-Strauss (antropólogo) relata, em seu livro "Tristes Trópicos", o mito de origem dos índios mbaiá - guaicuru, cujo território situava-se em terras paraguaias e brasileiras. Eles aprenderam a montar a cavalos e adquiriram com isso grande mobilidade e poder, passando a dominar e explorar outros grupos indígenas da região. O mito mbaiá diz o seguinte: "Quando o ser supremo, Gonoenhodi, decidiu criar os homens, tirou primeiro da terra os guaná, depois as outras tribos; aos primeiros, deu a agricultura, e a caça às segundas. O Enganador, que é outra entidade do panteão indígena, percebeu, então, que os mbaiá tinham sido esquecidos no fundo do buraco e os fez sair; mas, como nada mais lhes restasse, tiveram o direito à única função ainda disponível, a de oprimir e explorar os outros." Exemplo 2 Durante a Guerra do Vietnã, o comandante das Forças Armadas norte-americanas, vendo-se obrigado a explicar as sucessivas derrotas de suas tropas, declarou à imprensa que os "amarelos comunistas" estavam ganhando a guerra porque, ao contrário dos ocidentais, não davam valor à vida e, por isso, lutavam sem nenhum temor. Segundo o militar, os destemidos vietnamitas sequer expressavam dor por ocasião da morte de amigos e parentes! Exemplo 3 Os Cheyene, índios das planícies norte-americanas, se autodenominavam "os entes humanos; os akuáwa, grupo tupi do sul do Pará, consideram-se "os homens"; da mesma forma que os Navajo se intitulavam "o povo. Os aborígenes australianos chamavam as roupas dos brancos de "peles-de-fantasmas", pois não acreditavam que os ingleses fossem parte da humanidade; e os nossos xavantes acreditam que o seu território tribal está situado bem no centro do mundo." Exemplo 4 Os urubus, grupo tribal do vale do Pindaré (Maranhão), assim nomeados pelos vizinhos (civilizados e índios) se autodenominam Kaapor (Kaa = madeira, mata, floresta e Pôr - ser). Essa autodenominação sintetiza admiravelmente o mito ou a explicação da origem do grupo. "Todos os homens vieram das madeiras. Todos. Só que, enquanto os Kaapor originaram-se das madeiras boas, os outros homens (a humanidade, para eles) nasceram das madeiras podres. ( do livro "Raça e diversidade", Lilia Moritz (org.), João Baptista Borges Pereira, Edusp, 1996, SP, pág. 18) |
As Dificuldades do Anti-EtnocentrismoSimon Schwartzman
É difícil, aparentemente, discordar do artigo de Howard Wiarda e de suas intenções. Ele faz o mea culpa das ciências sociais norte-americanas, mostra como o "Terceiro Mundo" vê as coisas de forma diferente, conclama seus colegas a reverem seus preconceitos ocidentalizantes. assim como suas agências de governo a reverem suas políticas. No entanto, o artigo deixa no final um sabor estranho, junto com a impressão de que algo está basicamente errado, e de que ele não consegue, na realidade, uma atitude realmente anti-etnocêntrica. O objetivo deste comentário é tratar de localizar onde está, na realidade, o problema. Uma coisa que está obviamente errada é que Wiarda apresenta como um fenômeno novo algo que já é bem antigo, tanto nas ciências sociais de língua inglesa quanto nos países do "Terceiro Mundo". Sem ir muito longe, é possível lembrar o texto clássico de Alexander Gershenkron (Economic Backwardness in Historical Perspective, 1962) que, referido principalmente aos países da Europa Central, mostrava claramente como o caminho de desenvolvimento da Inglaterra e França era irrepetível. Depois, basta acompanhar as notas de pé de página do próprio artigo para vermos outras referências importantes: o artigo de Bendix de 1964, o de Richard Morse do mesmo ano, o livro de Eisenstadt de 1966. Sem falar, evidentemente, na obra também clássica e não citada de Barrington Moore de 1966, Social Origins of Dictatorship and Democracy. As teorias unilineares de desenvolvimento, no estilo dos trabalhos de Daniel Lerner ou do "manifesto não-comunista" de W. W. Rostow, já foram abandonadas pelos cientistas sociais norte-americanos há pelo menos 15 ou 20 anos, e não deixa de ser curioso que isto surja para o autor como novidade. É claro que, nos países do "Terceiro Mundo" a crítica ao unilinearismo já vem de muito antes. Para ficarmos somente no Brasil: Gilberto Freyre escreveu Casa Grande & Senzala na década de 30, e suas teses sobre a especificidade da cultura luso-tropical têm sido publicadas há muitos anos em língua inglesa. No outro extremo, Alberto Guerreiro Ramos já fazia a crítica à sociologia anglo-saxã para o entendimento dos problemas sociais e políticos do Brasil desde o final dos anos cinqüenta, com sua Redução Sociológica. Mais sério do que isto, no entanto, é a total negação que faz o autor de toda a produção das ciências sociais latino-americanas dos últimos anos, que têm se dedicado especificamente a este problema. Toda a sua referência a autores latino-americanos que tratam do assunto se limita a dois textos: o já obsoleto Dependência e Subdesenvolvimento na América Latina, de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, e o livro de Cláudio Véliz, The Centralist Tradition. Ele deixa de lado, ainda sem sair do Brasil, todo o material referido por Bolivar Lamounier e Femando Henrique Cardoso em "A Bibliografia de Ciência Política sobre o Brasil (1949-74)", publicado em Dados n 18; assim como os trabalhos de repercussão internacional óbvia, como por exemplo os de Guillermo O'Donnell, ou de circulação mais restrita, mas que não deviam escapar ao especialista - como o meu próprio. Na realidade, a única referência às ciências sociais contemporâneas da América Litina é depreciativa e condescendente - a referência aos "salões" do mundo moderno, onde os intelectuais subdesenvolvidos externalizariam seus complexos de inferioridade colocando a culpa de seus problemas nos outros. Na realidade, a questão é ainda mais grave: Wiarda diz que a "próxima grande fronteira das ciências sociais" seria levar a sério as instituições dos países não-ocidentais, algo que deveria ser feito "agora pela primeira vez". Com isto, bota pelo ladrão não só a sociologia política da melhor qualidade dos últimos anos, como, de passo, toda a tradição da pesquisa antropológica, que nunca fez outra coisa; e apresenta como grande descoberta algo que todo mundo já sabia. A verdadeira dificuldade da aplicação das teorias do desenvolvimento para os países não-ocidentais não é, como diz Wiarda, o de "levar a sério" suas instituições e peculiaridades culturais (isto pode no máximo ser o problema de alguns setores mais míopes do Departamento de Estado norteamericano), mas o de como combinar o conhecimento desta diversidade com o fato inegável de que existe um processo global de modernização e internacionalização da cultura e da economia que atinge, de forma variada, a todos os países. Bendix expressou este problema com toda a clareza em seu trabalho de 1964, ao mostrar que os problemas de construção dos Estados nacionais. da expansão da cidadania, da racionalização e internacionalização da economia etc., atingiam todo o mundo e, neste sentido, ninguém escapa ao processo de modernização: o que era e continua sendo problemático são os caminhos que tomam estes processos, e seus possíveis resultados ou fracassos. Esta visão das coisas torna inaceitável o relativismo extremado de explicar tudo pelas "peculiaridades culturais" ou institucionais dos diversos países e sociedades, e exige uma ciência social de tipo comparativo e histórico muito mais desenvolvida e amadurecida. Acredito que esta é a verdadeira fronteira, aberta não agora por Wiarda, mas há pelo menos 20 anos atrás por vários dos autores citados acima (a partir de uma tradição predominantemente weberiana), e que não podem ser ignorados. Isto dito, creio que fica clara a dificuldade deste artigo: ao fazer tubula rasa de tudo o que já se sabe sobre o assunto que discute, o autor trata de colocar-se no centro de toda uma discussão que já vai longe - e atitude mais etnocêntrica, ou egocêntrica, não há. |
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